segunda-feira, 27 de julho de 2009

— Capítulo II —

Premonições


Se você reparou na forma do verbo “haver” que usei quando falei de mamãe pela primeira vez, deve também ter percebido o que provavelmente ocorrera. Se não, talvez tenha sido uma pequena surpresa saber disso. Pequena mesmo, se comparada à nossa quando tudo aconteceu...


Não gosto de falar sobre a morte de minha mãe. Se você já perdeu alguém cuja importância em sua vida foi de ordem incomensurável, consegue me entender. Caso contrário, sinto muito, mas não posso deixar a descrição deste sentimento inominável por conta de sua imaginação, como fiz com a caracterização dos coadjuvantes desta história, pois tenho absoluta certeza de que a tarefa foge à alçada dela. Tampouco pretendo executá-la. Resta, portanto, a reprodução de parte da matéria sobre o caso, publicada no Jornal Vespertino daqui, alguns dias após a tragédia. A frieza da mídia ao menos neste caso me servirá de refúgio...


“Num mundo onde os dicionários fossem escritos por ateus, a palavra 'religioso' poderia facilmente ser traduzida como sinônimo de outras três: Juliana Passos Andrade. A história desta dona de casa é uma daquelas que encapsulam à perfeição os pormenores do embate milenar entre religião e ciência. Católica fervorosa, a matriarca dos Andrade nunca tivera vergonha de professar sua fé inabalável no poder divino. Tanto era assim que recusou-se categoricamente durante bom tempo a tratar um tumor benigno diagnosticado entre as vértebras T10 e T11 da coluna. Não fosse a insistência da família (segunda instituição que mais prezava na vida), teria mesmo esperado pela intervenção do espírito santo para retirar-lhe o câncer. Entretanto, apesar de concluída com aparente sucesso, a cirurgia não foi capaz de diminuir em nem um décimo o desprezo que Juliana nutria pela medicina. E o respaldo ao seu descaso não tardou a chegar.


(...)


No começo eram dores abdominais suportáveis que lhe faziam companhia durante as mais banais tarefas domésticas. Depois, viraram agulhadas extremamente incômodas, seguidas de sermões sobre o arrependimento de Juliana por ter cedido às pressões mundanas e ido ao médico – segundo ela, as dores atuais constituíam nada menos que um castigo de Deus pela sua desobediência. Nem a família, desta vez, foi capaz de fazê-la voltar ao hospital. Alegava merecer aquilo e que jamais tornaria a pôr os pés em semelhante instituição de culto à limitada sabedoria humana. Os fatos, todavia, indicaram o contrário. Os dois próximos parágrafos são parcialmente baseados nas suposições da família, polícia e em relatos de algumas testemunhas sobre o caso.


Numa das nada raras manhãs em que Juliana Andrade se viu sozinha com os afazeres domésticos, as dores atingiram níveis agonizantes. Aproveitando, então, que nenhum membro da família ficaria sabendo (e protegendo, quem sabe, seu ego religioso de provocações vindouras), a mulher decidiu enfim ir ao Hospital Universitário onde realizara a cirurgia, munida dos resultados de todos os exames que lhe haviam sido solicitados, na ocasião – não pretendia voltar para casa sem o remédio definitivo para suas dores. Proveniente de família humilde, necessitou, para fazer o trajeto, do transporte público, que àquela hora encontrava-se tragicamente abarrotado de pessoas atrasadas para o trabalho, ocupadas demais, portanto, para notar o semblante de dor no rosto de uma mulher que não aparentava gravidez, deficiência física nem idade avançada (os requisitos necessários para que a cessão de assento fosse obrigatória). Assim, Juliana teve de ficar em pé durante a viagem. Ou parte dela.


O micro-ônibus da linha 815 não dera qualquer solavanco em todo o trajeto. Por isso, a Sra. Andrade pareceu não achar que tirar a única mão com que segurava a barra de apoio (já que a outra estava ocupada com a pasta de exames) para fazer o sinal da cruz em frente à bela catedral gótica às margens da rodovia fosse uma má idéia — sobretudo porque o veículo estava parado no sinal. E este foi o seu maior erro, pois, exatamente nos poucos segundos em que se viu 'solta' sobre o soalho metálico da condução, eis que esta acelerou, a toda velocidade, e parou, com um baque tão súbito quanto a arrancada. Ninguém diria, então, que o motociclista que acabara de ser atropelado pelo ônibus (ver matéria completa na página 9) não era a vítima mais grave do acidente.


Muitos passageiros da lotação se machucaram, mas nenhum tão seriamente quanto a mãe dos gêmeos Andrade. Juliana foi projetada por sobre os bancos, indo bater a região pélvica com força contra a roleta. A intensidade e local da pancada desencadearam uma séria hemorragia interna, da qual, apesar de socorrida às pressas, Juliana não sairia com vida.


Três dias após o acidente fatal, vinha a autópsia reveladora: Juliana Andrade tinha uma tesoura cirúrgica de 15 centímetros esquecida dentro do corpo, numa região perigosamente próxima a órgãos vitais. A batida no ônibus fizera com que o objeto perfurasse, de uma só vez, fígado e baço, causando a hemorragia.”

As conseqüências mais banais da tragédia podem ser enumeradas em quatro:


1 – recebemos indenização do hospital e da empresa responsável pelo transporte público. Papai aplicou tudo pensando na nossa faculdade (um desperdício, se quer saber minha opinião).


2 – ninguém foi preso por negligência, de qualquer ordem.


3 – papai e eu ficamos divididos sobre em quem colocar a culpa: se na gente, por ter praticamente carregado a mamãe ao hospital para fazer a cirurgia; nos médicos, pela falta de preparo e respeito para com a vida humana; no motorista, que teve a audácia de dizer que fora possuído por um espírito maligno, quando pisou no acelerador.


4 – David conseguira a proeza de achar um outro culpado: a fé de mamãe.


E era mesmo sobre esta última idéia que ele falava, quando minha atenção voltou de algum lugar longínquo para a conversa que estávamos tendo há meia hora, eu sentado na cama, David andando de um lado para o outro dentro do quarto, no melhor estilo “pai que espera a notícia sobre se correu tudo bem no parto da esposa”:


—... em nenhum momento, cara! Em nenhum instante a porcaria do ônibus tinha dado um único solavanco sequer! Então, como que por intervenção dos deuses, justo na hora em que a mamãe vai fazer o maldito sinal da cruz, um espírito baixa no motorista, ele arranca como um animal e tira a vida dela.


— Deixe ver se entendi – comecei, depois de um longo bocejo, como um aluno que acabara de ter a mais desvairada aula de sua vida. – Na sua opinião, a mamãe foi vítima da própria fé.


— Isso.


— Porque ela nunca recebeu qualquer tipo de graça durante a vida.


— Exato.


— E agora, você acha que pode trazê-la de volta...


— Tenho quase certeza.


—... pois a ressurreição seria uma espécie de... Recompensa...


— Mínima pela fé dela enquanto viva, exatamente – completou David, que, em outra ocasião, certamente demonstraria algum grau de felicidade por eu ter compreendido tudo tão depressa. Agora, no entanto, só havia aquele irracional fragor de ansiedade misturado a angústia em seu rosto ossudo.


— Entendo – ponderei, incapaz de parar de fitá-lo – Então, basicamente, você andou entornando da mesma cachaça que o finado Sr. Orestes costumava tomar.


— Eu já disse que não estou brincando! — vociferou David, interrompendo a caminhada para me fuzilar com os olhos, e logo depois a retomou – Aquele velho idiota não tinha a mínima idéia do que estava falando, fez um favor a todo mundo quando teve o enfarte e morreu.


Aquilo me surpreendeu. David não era de falar mal das pessoas, por menor que fosse sua condição intelectual, a seus olhos. Talvez o lance tivesse mesmo algo de sério.


— Nesse caso, será que dava pra repetir a parte sobre como você vai dar uma de Jesus Cristo, se a mamãe morreu faz oito meses?


— Mark, põe uma coisa na sua cabeça – e ele segurou meus ombros com as mãos. Detesto quando alguém começa uma frase desse jeito, porque geralmente significa que vai explicar algo muito evidente, se a pessoa se der o trabalho de parar por dois segundos para pensar no assunto: — No que concerne aos relatos bíblicos sobre ressurreição, o tempo é algo absolutamente irrelevante. Ou você acha que Jesus não teria conseguido trazer Lázaro de volta, caso já houvesse se passado uma década desde a morte dele?


— Mas você não é Jesus! — repliquei.


— Não iria dispor de maiores poderes, se fosse – desdenhou meu irmão. Como qualquer adepto do empirismo contraditório, ele considerava a divindade, fosse de Jesus ou de qualquer outro profeta, mera questão de fé. – Embora por pura coincidência, tenho realmente fortes razões para acreditar que as conjeturas bíblicas sobre o tempo se aplicam também à vida real. Mas, até que eu conclua meu projeto, Mark, tudo o que você sabe sobre retorno ao mundo dos vivos não passa de simbolismo! E alguma coisa, da qual ainda não posso falar abertamente com você, vai tentar me impedir de terminar a tarefa. É aí que você precisa entrar, prometendo concluir o que comecei, se eu for mesmo tirado do caminho.


Cinco palavras estiveram à beira de escapar da minha boca naquele momento, mas, felizmente, consegui reprimi-las a tempo. Em vez delas, disse:


— É tudo surreal demais... Se você pelo menos tentasse me explicar o jeito como pretende fazer isso...


Pela terceira vez ele interrompeu a caminhada. Me olhou, algo conflitante, como a avaliar se não estava cometendo uma tremenda burrice ao dividir aquilo comigo.


— Estou escrevendo um livro – disse, enfim, como se confessasse ser HIV positivo.


Isso explica o isolamento, pensei, perdendo muito do entusiasmo anterior. Considerando este, só nas minhas contas, David já escrevera quatro livros ao todo, e, durante o processo de confecção de todos eles, sem exceção, trancara-se no quarto, só havendo três possibilidades de abandonar seu posto na frente do PC: necessidade fisiológica, morte ou o papai brandindo a conta de luz na mão esquerda, porque a direita estava ocupada com o cinto. Aliás, na ordem inversa (claro), as duas últimas possibilidades poderiam se suceder facilmente. Por preguiça, segundo ele (“medo de ter o ego reduzido a pó”, minha opinião), meu irmão jamais enviara qualquer escrito seu para avaliação em editoras, e aos poucos me vi cada vez mais distante da tentadora fantasia de nadar em dinheiro, como certamente faziam os filhos dos autores de best-sellers mundiais...


David deve ter percebido a decepção no meu rosto, porque acrescentou depressa:


— Mas não é como os outros, não. Este é baseado num sonho que eu tive uns dois meses depois da morte da mamãe. Foi um sonho bem estranho, sabe, só que eu nunca consegui me lembrar do final dele... Era um final único, cara, pode confiar em mim.


Assenti. Ele prosseguiu.


— Eu sei que parece a maior tolice que você já ouviu... Olha, Mark, há convincentes motivos para supor que, se eu puder ler o relato deste sonho em cima do túmulo de mamãe, em determinadas condições, será... — David vacilou — Vai ser suficiente para trazê-la de volta...


Eu não sabia se ria ou chorava. As cinco palavras fizeram outra tentativa de ganhar a liberdade. Sem sucesso.


— Sei... — disse. — Mas fazia sentido ou se parecia com os meus? O sonho, quero dizer.

David esboçou o mais próximo de um sorriso que a preocupação sem sentido lhe permitiu. Quando criança, eu passara algum tempo tendo assustadores pesadelos, dos quais sempre acordava em qualquer lugar da casa, menos na minha cama. “Princípio de sonambulismo”, diagnosticaram os médicos. David morria de medo. Tomei uma porção de sedativos contra hiperatividade, mas foi mesmo só quando ele me deu uma panelada na cabeça que parei com aquilo de uma vez por todas.


— Eu... Não sei se posso te dar essa informação agora... — engrolou ele, com paranóicas olhadelas para os lados, como se temesse alguma espécie de vigilância sobrenatural. Outra vez as cinco palavras por pouco não emergiram de minha garganta – Bom, em todo o caso, só o que você precisa saber é que ele ainda não faz sentido. Ainda, veja bem. E que o final precisa ser bolado de modo a dar um encaixe perfeito a todas as peças apresentadas ao longo da trama inteira, entendeu?


— Sim – respondi – Mais alguma coisa?


— Você precisa fazer isso enquanto estiver acordado, tudo bem?


— É, tenho que concordar que seria muito difícil escrever dormindo...


— Então você promete?


Hesitei.


— Defina “determinadas condições”.


David riu.


— Para miudezas contratuais, a sua memória até que funciona bem, né? Mas não se preocupe, esse pormenor não vai afetar em nada a sua masculinidade, se é o que quer saber.


Levantei uma sobrancelha, ainda desconfiado. Por fim, resolvi erguer a palma da mão direita e recitar:


— Eu, Mark Passos Andrade, prometo dar continuidade ao mais novo projeto literário de meu irmão, caso alguma coisa o impeça de fazê-lo. Prometo também só redigir acordado e procurando sempre dar o desfecho mais digno possível à trama.


O rosto de David se iluminou de forma indescritível depois que fiz a promessa. Talvez seja por isso que resisti à tentação inata de cruzar os dedos atrás das costas. Ele veio em minha direção e me abraçou de um jeito que nunca fizera antes. Fiquei extremamente constrangido. Arrependo-me amargamente por não ter retribuído aquele gesto com a mesma intensidade.


— Valeu, mano – agradeceu, ao me soltar, quando um ruído de porta se abrindo na sala indicou que papai acabara de chegar – Não se preocupe, você só precisará cumprir essa promessa em último caso. Deixarei uma cópia da obra na segunda gaveta do seu armário.


E já ia saindo, na maior cara-de-pau, se eu não o chamasse de volta.


— Tá pensando o quê, você também precisa fazer uma promessa, muchacho.


— Vê lá, hein? — alertou David, rindo – Qual é?


As cinco palavras, enfim, escaparam de sua prisão:


— Vai procurar uma namorada, cara.


Devido ao compromisso de resgatar a bola no cemitério antes de ir para o trabalho, no dia seguinte, fui dormir mais cedo que de costume. Tive um sonho perturbador aquela noite. Entrecortado por lapsos dos quais não consigo (ou não quero) lembrar, me vi abrindo o portão e indo, a pé, até o Olympe de Gouges. Segurava alguma coisa gelada nas mãos. Alguma coisa da qual me livrei após subir numa árvore, dentro do cemitério... Depois, já de volta ao chão, pude discernir a silhueta do grande anjo de mármore com a foice quebrada nas mãos se destacando contra a lua cheia, enquanto uma porção de vultos indistintos se aproximava com lentidão sincronizada, formando um círculo perfeito à sua volta. Todos seguravam copos descartáveis, e eu meio que temi ter esquecido o meu em cima da árvore, mas estava enganado. A uma ordem confusa, levamos os objetos até a boca. Senti uma ardência mortal subindo pela minha garganta, e acordei com uma horrível dor de cabeça, que passou tão rápido quanto surgiu.


Assustado por causa do pesadelo, não consegui mais pegar no sono, até que a claridade do alvorecer penetrou pelos buraquinhos enfileirados da janela e o despertador do celular indicou, finalmente, a hora de levantar. Papai já saíra para o serviço e eu tomei o café da manhã mais sem gosto da minha vida — era como se a perturbação de David na noite anterior tivesse se hospedado em mim, naquela manhã.


Saí para o dia que se anunciava inexplicavelmente nublado. Ventava bastante e pensei, com o coração apertado, que se mamãe fosse viva, certamente me obrigaria a pôr um casaco. As ruas estavam previsivelmente desertas, com exceção de um ou outro cachorro perdido. Quando passei em frente às discretas portas de caixilhos com vidros escuros da Upload, já faltavam apenas 15 minutos para começar o expediente. Decidi correr.


Cruzei o ginásio olhando com melancolia para o banco onde, tarde passada, Vanessa Lemos estava confortavelmente acomodada, a boca aberta de deliciosa surpresa com a genialidade da minha jogada anterior.


— Aquela vadia...


Como esperava, a decrépita caminhonete do Seu André já fora estacionada a um canto e os imensos portões de ferro do Olympe estavam apenas encostados. Quando gritei pelo coveiro, no entanto, ninguém apareceu. Hesitante, resolvi entrar. Àquela hora, o cemitério não me metia lá tanto medo, sobretudo porque sabia que André estaria lá dentro, em caso de qualquer acidente envolvendo entidades sobrenaturais.


O Olympe se parecia muito com os cemitérios clandestinos no que se referia à irregularidade do solo. Havia cruzes estrelas e orbes de todos os tipos, religiões e tamanhos, que se acotovelavam na busca por um espaço digno para exibirem suas extremidades de pedra. Jazigos de família e mausoléus de aparência secular conferiam o tom habitual de lugubridade desses lugares.


Não demorou muito para eu notar coisas estranhas. Primeiro, uma antiga cadeira de rodas estava tombada ao largo de uma capela de azulejos azuis. Depois, destoando do canto ritmado dos outros pássaros matinais, escutei um grazinado para lá de familiar:


— Maria Chuteira!


Olhei assustado para o alto, e qual não foi minha surpresa ao identificar a gaiola do meu papagaio presa entre dois galhos da imponente goiabeira que lançava sombras gélidas sobre os túmulos embaixo.


— Fidel?! Mas que diabos...


Ele me fitava sobressaltado por entre as grades, como a implorar o resgate imediato. Eu sabia que devia ter feito isso, contudo uma apreensão injustificada tomou conta de mim. O pesadelo, a promessa da noite anterior, Fidel — tudo parecia prenúncio para algo absolutamente tétrico. Confuso, segui andando mais depressa pelo piso formado por blocos retangulares, me esgueirando por entre os mausoléus até distinguir a cabeleira desgrenhada do Seu André emergindo aos poucos, próximo ao túmulo recentemente adornado do Orestes. Ele estava parado, de costas para mim, o molho prateado de chaves nas mãos. A visão do coveiro fez alguma coisa dentro de mim se acalmar. Foi difícil lembrar o que mesmo eu viera fazer ali.


— Seu André, desculpe ter entrado sem pedir, mas é que eu...


E o caráter peculiar da cena que se descortinou em minha frente interrompeu a frase na metade. Sete pessoas jaziam caídas em volta do anjo de mármore que encimava o túmulo do Sr. Orestes. Dispostas num semicírculo, pareciam dormir. Havia copos descartáveis espalhados no chão. A princípio, não atentei para o déjà vu, imaginando com ingenuidade que deviam ser góticos malucos em coma alcoólico, embora o vestuário não combinasse. Fidel seguia tagarelando ao longe, indignado com meu pouco caso. Me abaixei para pegar um dos copos, mas, antes que pudesse levá-lo ao nariz, o Seu André ordenou, a voz grossa como eu nunca ouvira:


— Não toca nisso!


Obedeci mesmo sem ter escutado de fato. É que havia atentado de repente para o único elemento da tétrica cena que impedia que a circunferência iniciada pelos demais se fechasse. A respiração suspensa, os músculos retesados, andei até o corpo do garoto caído de bruços aos pés do anjo de mármore e o virei.


David dormia. O cabelo preto cobrindo a metade da testa. Tentei acordá-lo, sacudindo-o devagar pelos ombros, depois dando tapas no rosto, cujo lado esquerdo adquirira os sulcos correspondendo às divisórias entre as pedras frias do pavimento. Não adiantou. O que ele viera fazer naquele lugar? Ah, David, você ia arrumar uma encrenca tão grande com o papai... Era só eu conseguir fazer você acordar que ia ver uma coisa... Cara, você nunca foi de beber... Por que esta apreensão idiota está voltando?


— É veneno... — balbuciou André, e imaginei posteriormente que estivesse apontando os copos. A essa altura eu já devia ter começado a gritar que David acordasse.


— O seu irmão está morto, filho...



Não ouvi mais nada.

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