segunda-feira, 27 de julho de 2009

— Capítulo II —

Premonições


Se você reparou na forma do verbo “haver” que usei quando falei de mamãe pela primeira vez, deve também ter percebido o que provavelmente ocorrera. Se não, talvez tenha sido uma pequena surpresa saber disso. Pequena mesmo, se comparada à nossa quando tudo aconteceu...


Não gosto de falar sobre a morte de minha mãe. Se você já perdeu alguém cuja importância em sua vida foi de ordem incomensurável, consegue me entender. Caso contrário, sinto muito, mas não posso deixar a descrição deste sentimento inominável por conta de sua imaginação, como fiz com a caracterização dos coadjuvantes desta história, pois tenho absoluta certeza de que a tarefa foge à alçada dela. Tampouco pretendo executá-la. Resta, portanto, a reprodução de parte da matéria sobre o caso, publicada no Jornal Vespertino daqui, alguns dias após a tragédia. A frieza da mídia ao menos neste caso me servirá de refúgio...


“Num mundo onde os dicionários fossem escritos por ateus, a palavra 'religioso' poderia facilmente ser traduzida como sinônimo de outras três: Juliana Passos Andrade. A história desta dona de casa é uma daquelas que encapsulam à perfeição os pormenores do embate milenar entre religião e ciência. Católica fervorosa, a matriarca dos Andrade nunca tivera vergonha de professar sua fé inabalável no poder divino. Tanto era assim que recusou-se categoricamente durante bom tempo a tratar um tumor benigno diagnosticado entre as vértebras T10 e T11 da coluna. Não fosse a insistência da família (segunda instituição que mais prezava na vida), teria mesmo esperado pela intervenção do espírito santo para retirar-lhe o câncer. Entretanto, apesar de concluída com aparente sucesso, a cirurgia não foi capaz de diminuir em nem um décimo o desprezo que Juliana nutria pela medicina. E o respaldo ao seu descaso não tardou a chegar.


(...)


No começo eram dores abdominais suportáveis que lhe faziam companhia durante as mais banais tarefas domésticas. Depois, viraram agulhadas extremamente incômodas, seguidas de sermões sobre o arrependimento de Juliana por ter cedido às pressões mundanas e ido ao médico – segundo ela, as dores atuais constituíam nada menos que um castigo de Deus pela sua desobediência. Nem a família, desta vez, foi capaz de fazê-la voltar ao hospital. Alegava merecer aquilo e que jamais tornaria a pôr os pés em semelhante instituição de culto à limitada sabedoria humana. Os fatos, todavia, indicaram o contrário. Os dois próximos parágrafos são parcialmente baseados nas suposições da família, polícia e em relatos de algumas testemunhas sobre o caso.


Numa das nada raras manhãs em que Juliana Andrade se viu sozinha com os afazeres domésticos, as dores atingiram níveis agonizantes. Aproveitando, então, que nenhum membro da família ficaria sabendo (e protegendo, quem sabe, seu ego religioso de provocações vindouras), a mulher decidiu enfim ir ao Hospital Universitário onde realizara a cirurgia, munida dos resultados de todos os exames que lhe haviam sido solicitados, na ocasião – não pretendia voltar para casa sem o remédio definitivo para suas dores. Proveniente de família humilde, necessitou, para fazer o trajeto, do transporte público, que àquela hora encontrava-se tragicamente abarrotado de pessoas atrasadas para o trabalho, ocupadas demais, portanto, para notar o semblante de dor no rosto de uma mulher que não aparentava gravidez, deficiência física nem idade avançada (os requisitos necessários para que a cessão de assento fosse obrigatória). Assim, Juliana teve de ficar em pé durante a viagem. Ou parte dela.


O micro-ônibus da linha 815 não dera qualquer solavanco em todo o trajeto. Por isso, a Sra. Andrade pareceu não achar que tirar a única mão com que segurava a barra de apoio (já que a outra estava ocupada com a pasta de exames) para fazer o sinal da cruz em frente à bela catedral gótica às margens da rodovia fosse uma má idéia — sobretudo porque o veículo estava parado no sinal. E este foi o seu maior erro, pois, exatamente nos poucos segundos em que se viu 'solta' sobre o soalho metálico da condução, eis que esta acelerou, a toda velocidade, e parou, com um baque tão súbito quanto a arrancada. Ninguém diria, então, que o motociclista que acabara de ser atropelado pelo ônibus (ver matéria completa na página 9) não era a vítima mais grave do acidente.


Muitos passageiros da lotação se machucaram, mas nenhum tão seriamente quanto a mãe dos gêmeos Andrade. Juliana foi projetada por sobre os bancos, indo bater a região pélvica com força contra a roleta. A intensidade e local da pancada desencadearam uma séria hemorragia interna, da qual, apesar de socorrida às pressas, Juliana não sairia com vida.


Três dias após o acidente fatal, vinha a autópsia reveladora: Juliana Andrade tinha uma tesoura cirúrgica de 15 centímetros esquecida dentro do corpo, numa região perigosamente próxima a órgãos vitais. A batida no ônibus fizera com que o objeto perfurasse, de uma só vez, fígado e baço, causando a hemorragia.”

As conseqüências mais banais da tragédia podem ser enumeradas em quatro:


1 – recebemos indenização do hospital e da empresa responsável pelo transporte público. Papai aplicou tudo pensando na nossa faculdade (um desperdício, se quer saber minha opinião).


2 – ninguém foi preso por negligência, de qualquer ordem.


3 – papai e eu ficamos divididos sobre em quem colocar a culpa: se na gente, por ter praticamente carregado a mamãe ao hospital para fazer a cirurgia; nos médicos, pela falta de preparo e respeito para com a vida humana; no motorista, que teve a audácia de dizer que fora possuído por um espírito maligno, quando pisou no acelerador.


4 – David conseguira a proeza de achar um outro culpado: a fé de mamãe.


E era mesmo sobre esta última idéia que ele falava, quando minha atenção voltou de algum lugar longínquo para a conversa que estávamos tendo há meia hora, eu sentado na cama, David andando de um lado para o outro dentro do quarto, no melhor estilo “pai que espera a notícia sobre se correu tudo bem no parto da esposa”:


—... em nenhum momento, cara! Em nenhum instante a porcaria do ônibus tinha dado um único solavanco sequer! Então, como que por intervenção dos deuses, justo na hora em que a mamãe vai fazer o maldito sinal da cruz, um espírito baixa no motorista, ele arranca como um animal e tira a vida dela.


— Deixe ver se entendi – comecei, depois de um longo bocejo, como um aluno que acabara de ter a mais desvairada aula de sua vida. – Na sua opinião, a mamãe foi vítima da própria fé.


— Isso.


— Porque ela nunca recebeu qualquer tipo de graça durante a vida.


— Exato.


— E agora, você acha que pode trazê-la de volta...


— Tenho quase certeza.


—... pois a ressurreição seria uma espécie de... Recompensa...


— Mínima pela fé dela enquanto viva, exatamente – completou David, que, em outra ocasião, certamente demonstraria algum grau de felicidade por eu ter compreendido tudo tão depressa. Agora, no entanto, só havia aquele irracional fragor de ansiedade misturado a angústia em seu rosto ossudo.


— Entendo – ponderei, incapaz de parar de fitá-lo – Então, basicamente, você andou entornando da mesma cachaça que o finado Sr. Orestes costumava tomar.


— Eu já disse que não estou brincando! — vociferou David, interrompendo a caminhada para me fuzilar com os olhos, e logo depois a retomou – Aquele velho idiota não tinha a mínima idéia do que estava falando, fez um favor a todo mundo quando teve o enfarte e morreu.


Aquilo me surpreendeu. David não era de falar mal das pessoas, por menor que fosse sua condição intelectual, a seus olhos. Talvez o lance tivesse mesmo algo de sério.


— Nesse caso, será que dava pra repetir a parte sobre como você vai dar uma de Jesus Cristo, se a mamãe morreu faz oito meses?


— Mark, põe uma coisa na sua cabeça – e ele segurou meus ombros com as mãos. Detesto quando alguém começa uma frase desse jeito, porque geralmente significa que vai explicar algo muito evidente, se a pessoa se der o trabalho de parar por dois segundos para pensar no assunto: — No que concerne aos relatos bíblicos sobre ressurreição, o tempo é algo absolutamente irrelevante. Ou você acha que Jesus não teria conseguido trazer Lázaro de volta, caso já houvesse se passado uma década desde a morte dele?


— Mas você não é Jesus! — repliquei.


— Não iria dispor de maiores poderes, se fosse – desdenhou meu irmão. Como qualquer adepto do empirismo contraditório, ele considerava a divindade, fosse de Jesus ou de qualquer outro profeta, mera questão de fé. – Embora por pura coincidência, tenho realmente fortes razões para acreditar que as conjeturas bíblicas sobre o tempo se aplicam também à vida real. Mas, até que eu conclua meu projeto, Mark, tudo o que você sabe sobre retorno ao mundo dos vivos não passa de simbolismo! E alguma coisa, da qual ainda não posso falar abertamente com você, vai tentar me impedir de terminar a tarefa. É aí que você precisa entrar, prometendo concluir o que comecei, se eu for mesmo tirado do caminho.


Cinco palavras estiveram à beira de escapar da minha boca naquele momento, mas, felizmente, consegui reprimi-las a tempo. Em vez delas, disse:


— É tudo surreal demais... Se você pelo menos tentasse me explicar o jeito como pretende fazer isso...


Pela terceira vez ele interrompeu a caminhada. Me olhou, algo conflitante, como a avaliar se não estava cometendo uma tremenda burrice ao dividir aquilo comigo.


— Estou escrevendo um livro – disse, enfim, como se confessasse ser HIV positivo.


Isso explica o isolamento, pensei, perdendo muito do entusiasmo anterior. Considerando este, só nas minhas contas, David já escrevera quatro livros ao todo, e, durante o processo de confecção de todos eles, sem exceção, trancara-se no quarto, só havendo três possibilidades de abandonar seu posto na frente do PC: necessidade fisiológica, morte ou o papai brandindo a conta de luz na mão esquerda, porque a direita estava ocupada com o cinto. Aliás, na ordem inversa (claro), as duas últimas possibilidades poderiam se suceder facilmente. Por preguiça, segundo ele (“medo de ter o ego reduzido a pó”, minha opinião), meu irmão jamais enviara qualquer escrito seu para avaliação em editoras, e aos poucos me vi cada vez mais distante da tentadora fantasia de nadar em dinheiro, como certamente faziam os filhos dos autores de best-sellers mundiais...


David deve ter percebido a decepção no meu rosto, porque acrescentou depressa:


— Mas não é como os outros, não. Este é baseado num sonho que eu tive uns dois meses depois da morte da mamãe. Foi um sonho bem estranho, sabe, só que eu nunca consegui me lembrar do final dele... Era um final único, cara, pode confiar em mim.


Assenti. Ele prosseguiu.


— Eu sei que parece a maior tolice que você já ouviu... Olha, Mark, há convincentes motivos para supor que, se eu puder ler o relato deste sonho em cima do túmulo de mamãe, em determinadas condições, será... — David vacilou — Vai ser suficiente para trazê-la de volta...


Eu não sabia se ria ou chorava. As cinco palavras fizeram outra tentativa de ganhar a liberdade. Sem sucesso.


— Sei... — disse. — Mas fazia sentido ou se parecia com os meus? O sonho, quero dizer.

David esboçou o mais próximo de um sorriso que a preocupação sem sentido lhe permitiu. Quando criança, eu passara algum tempo tendo assustadores pesadelos, dos quais sempre acordava em qualquer lugar da casa, menos na minha cama. “Princípio de sonambulismo”, diagnosticaram os médicos. David morria de medo. Tomei uma porção de sedativos contra hiperatividade, mas foi mesmo só quando ele me deu uma panelada na cabeça que parei com aquilo de uma vez por todas.


— Eu... Não sei se posso te dar essa informação agora... — engrolou ele, com paranóicas olhadelas para os lados, como se temesse alguma espécie de vigilância sobrenatural. Outra vez as cinco palavras por pouco não emergiram de minha garganta – Bom, em todo o caso, só o que você precisa saber é que ele ainda não faz sentido. Ainda, veja bem. E que o final precisa ser bolado de modo a dar um encaixe perfeito a todas as peças apresentadas ao longo da trama inteira, entendeu?


— Sim – respondi – Mais alguma coisa?


— Você precisa fazer isso enquanto estiver acordado, tudo bem?


— É, tenho que concordar que seria muito difícil escrever dormindo...


— Então você promete?


Hesitei.


— Defina “determinadas condições”.


David riu.


— Para miudezas contratuais, a sua memória até que funciona bem, né? Mas não se preocupe, esse pormenor não vai afetar em nada a sua masculinidade, se é o que quer saber.


Levantei uma sobrancelha, ainda desconfiado. Por fim, resolvi erguer a palma da mão direita e recitar:


— Eu, Mark Passos Andrade, prometo dar continuidade ao mais novo projeto literário de meu irmão, caso alguma coisa o impeça de fazê-lo. Prometo também só redigir acordado e procurando sempre dar o desfecho mais digno possível à trama.


O rosto de David se iluminou de forma indescritível depois que fiz a promessa. Talvez seja por isso que resisti à tentação inata de cruzar os dedos atrás das costas. Ele veio em minha direção e me abraçou de um jeito que nunca fizera antes. Fiquei extremamente constrangido. Arrependo-me amargamente por não ter retribuído aquele gesto com a mesma intensidade.


— Valeu, mano – agradeceu, ao me soltar, quando um ruído de porta se abrindo na sala indicou que papai acabara de chegar – Não se preocupe, você só precisará cumprir essa promessa em último caso. Deixarei uma cópia da obra na segunda gaveta do seu armário.


E já ia saindo, na maior cara-de-pau, se eu não o chamasse de volta.


— Tá pensando o quê, você também precisa fazer uma promessa, muchacho.


— Vê lá, hein? — alertou David, rindo – Qual é?


As cinco palavras, enfim, escaparam de sua prisão:


— Vai procurar uma namorada, cara.


Devido ao compromisso de resgatar a bola no cemitério antes de ir para o trabalho, no dia seguinte, fui dormir mais cedo que de costume. Tive um sonho perturbador aquela noite. Entrecortado por lapsos dos quais não consigo (ou não quero) lembrar, me vi abrindo o portão e indo, a pé, até o Olympe de Gouges. Segurava alguma coisa gelada nas mãos. Alguma coisa da qual me livrei após subir numa árvore, dentro do cemitério... Depois, já de volta ao chão, pude discernir a silhueta do grande anjo de mármore com a foice quebrada nas mãos se destacando contra a lua cheia, enquanto uma porção de vultos indistintos se aproximava com lentidão sincronizada, formando um círculo perfeito à sua volta. Todos seguravam copos descartáveis, e eu meio que temi ter esquecido o meu em cima da árvore, mas estava enganado. A uma ordem confusa, levamos os objetos até a boca. Senti uma ardência mortal subindo pela minha garganta, e acordei com uma horrível dor de cabeça, que passou tão rápido quanto surgiu.


Assustado por causa do pesadelo, não consegui mais pegar no sono, até que a claridade do alvorecer penetrou pelos buraquinhos enfileirados da janela e o despertador do celular indicou, finalmente, a hora de levantar. Papai já saíra para o serviço e eu tomei o café da manhã mais sem gosto da minha vida — era como se a perturbação de David na noite anterior tivesse se hospedado em mim, naquela manhã.


Saí para o dia que se anunciava inexplicavelmente nublado. Ventava bastante e pensei, com o coração apertado, que se mamãe fosse viva, certamente me obrigaria a pôr um casaco. As ruas estavam previsivelmente desertas, com exceção de um ou outro cachorro perdido. Quando passei em frente às discretas portas de caixilhos com vidros escuros da Upload, já faltavam apenas 15 minutos para começar o expediente. Decidi correr.


Cruzei o ginásio olhando com melancolia para o banco onde, tarde passada, Vanessa Lemos estava confortavelmente acomodada, a boca aberta de deliciosa surpresa com a genialidade da minha jogada anterior.


— Aquela vadia...


Como esperava, a decrépita caminhonete do Seu André já fora estacionada a um canto e os imensos portões de ferro do Olympe estavam apenas encostados. Quando gritei pelo coveiro, no entanto, ninguém apareceu. Hesitante, resolvi entrar. Àquela hora, o cemitério não me metia lá tanto medo, sobretudo porque sabia que André estaria lá dentro, em caso de qualquer acidente envolvendo entidades sobrenaturais.


O Olympe se parecia muito com os cemitérios clandestinos no que se referia à irregularidade do solo. Havia cruzes estrelas e orbes de todos os tipos, religiões e tamanhos, que se acotovelavam na busca por um espaço digno para exibirem suas extremidades de pedra. Jazigos de família e mausoléus de aparência secular conferiam o tom habitual de lugubridade desses lugares.


Não demorou muito para eu notar coisas estranhas. Primeiro, uma antiga cadeira de rodas estava tombada ao largo de uma capela de azulejos azuis. Depois, destoando do canto ritmado dos outros pássaros matinais, escutei um grazinado para lá de familiar:


— Maria Chuteira!


Olhei assustado para o alto, e qual não foi minha surpresa ao identificar a gaiola do meu papagaio presa entre dois galhos da imponente goiabeira que lançava sombras gélidas sobre os túmulos embaixo.


— Fidel?! Mas que diabos...


Ele me fitava sobressaltado por entre as grades, como a implorar o resgate imediato. Eu sabia que devia ter feito isso, contudo uma apreensão injustificada tomou conta de mim. O pesadelo, a promessa da noite anterior, Fidel — tudo parecia prenúncio para algo absolutamente tétrico. Confuso, segui andando mais depressa pelo piso formado por blocos retangulares, me esgueirando por entre os mausoléus até distinguir a cabeleira desgrenhada do Seu André emergindo aos poucos, próximo ao túmulo recentemente adornado do Orestes. Ele estava parado, de costas para mim, o molho prateado de chaves nas mãos. A visão do coveiro fez alguma coisa dentro de mim se acalmar. Foi difícil lembrar o que mesmo eu viera fazer ali.


— Seu André, desculpe ter entrado sem pedir, mas é que eu...


E o caráter peculiar da cena que se descortinou em minha frente interrompeu a frase na metade. Sete pessoas jaziam caídas em volta do anjo de mármore que encimava o túmulo do Sr. Orestes. Dispostas num semicírculo, pareciam dormir. Havia copos descartáveis espalhados no chão. A princípio, não atentei para o déjà vu, imaginando com ingenuidade que deviam ser góticos malucos em coma alcoólico, embora o vestuário não combinasse. Fidel seguia tagarelando ao longe, indignado com meu pouco caso. Me abaixei para pegar um dos copos, mas, antes que pudesse levá-lo ao nariz, o Seu André ordenou, a voz grossa como eu nunca ouvira:


— Não toca nisso!


Obedeci mesmo sem ter escutado de fato. É que havia atentado de repente para o único elemento da tétrica cena que impedia que a circunferência iniciada pelos demais se fechasse. A respiração suspensa, os músculos retesados, andei até o corpo do garoto caído de bruços aos pés do anjo de mármore e o virei.


David dormia. O cabelo preto cobrindo a metade da testa. Tentei acordá-lo, sacudindo-o devagar pelos ombros, depois dando tapas no rosto, cujo lado esquerdo adquirira os sulcos correspondendo às divisórias entre as pedras frias do pavimento. Não adiantou. O que ele viera fazer naquele lugar? Ah, David, você ia arrumar uma encrenca tão grande com o papai... Era só eu conseguir fazer você acordar que ia ver uma coisa... Cara, você nunca foi de beber... Por que esta apreensão idiota está voltando?


— É veneno... — balbuciou André, e imaginei posteriormente que estivesse apontando os copos. A essa altura eu já devia ter começado a gritar que David acordasse.


— O seu irmão está morto, filho...



Não ouvi mais nada.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

— Capítulo I —

A Sete Quadras


Quinta-feira, 7 de junho de 2007, feriado nacional de Corpus Christi. 5:48 da tarde. Lateral direita da quadra, próximo ao meio-campo. A posição era difícil, mas eu sabia disso quando cavei a falta. Dois times sentados do lado de fora aguardavam pelo lance que seria, a julgar pela olhadela impaciente do Roger para o cronômetro, o último do jogo. Dez minutos ou dois gols, era a nossa segunda regra menos passível de mudança, só perdendo para aquela segundo a qual, não havendo juiz, “a falta é identificada pelo grito veemente de 'parou, porra!'”. Quebrou o braço do fixo adversário? Conduta anti-esportiva, mas se o infeliz não lembrar de berrar a frase-chave, segue o jogo. Era por causa dessa regra que o Matraca, um garoto surdo-mudo de nascença, apresentava tantos hematomas pelo corpo todo (ele queria jogar, o que podíamos fazer?). E foi também devido a ela que eu pude arquitetar o lance pelo qual seria lembrado nas duas semanas seguintes.


A sorte não havia sido favorável comigo naquele dia – relegando a modéstia a seu devido posto, a ficção, só eu jogava alguma coisa no time. O Edu tinha o chute forte, mas era muito lento; o André, em compensação, fazia o Flash parecer uma tartaruga, mas não dispunha do menor vestígio de habilidade; o Moisés honrava o seu xará bíblico quando o assunto era abrir o jogo, mas bastava algum desavisado fazer qualquer elogio com potencial para inflamar o ego dele e vai ser fominha daquele jeito no inferno! Já o Hugo, que fechava o gol, só estava no time porque prometera levar um recado pretensioso do André (que selecionara o nosso naquele dia) para a gostosa da irmã dele, a Vanessa, que também assistia à partida.


— Sair, acabou! — avisou o Roger lá de fora.


O jogo estava empatado em três a três. Se a bola saísse agora, a decisão seria no par-ou-ímpar – não tínhamos tempo para pênaltis. Tirei Moisés da massa de garotos suados que se acotovelava no desespero da marcação e pedi para ele cobrar a falta.


— Volta em mim, rasteira – sussurrei, ao passar-lhe a bola. Moisés assentiu. Tição, um albino com pelo menos o triplo da massa corporal que um garoto normal teria na idade dele, adiantou-se para me marcar e agradeci aos céus por ser franzino. Era só em momentos como aquele que via alguma utilidade na teoria da evolução, já que explicava de forma mais ou menos satisfatória como uma característica tão aparentemente medíocre como ser magrelo poderia contribuir para a preservação da espécie.


Moisés fez tudo certo. Antes que seu pé direito sequer tocasse na bola, eu, graças à agilidade inerente aos magros, já conseguira me livrar da marcação cerrada de Tição, que ainda tentou puxar minha camisa. Tarde demais. Um toque sutil dado com o bico do tênis por baixo da redonda foi tudo o que precisei para vê-la viajando por sobre a cabeça de um assombrado Tição. Girei depressa o corpo no sentido oposto. Poderia ter dominado no peito antes de chutar, mas o instinto me alertou sabiamente que alguma desgraça certamente ocorreria, atrapalhando a conclusão. A omissão não tirou, entretanto, nem meio grama do brilho do lance: com o peito do pé esquerdo, mandei de primeira. No ângulo. Golaço. Virei-me instintivamente para Vanessa. O queixo da garota estava no chão.


Obrigado, Darwin.


Antes que eu tenha tempo de escrever que é por causa de lances como esse que dispensei apresentações específicas sobre o meu futebol, sobreveio a calamidade.


— Ih, furou a rede! — alguém lamentou, deixando um palavrão subentendido. Voltei-me com aquele ar de “tava bom demais...” para o gol adversário. Era verdade. A bola atravessara a rede e descrevia uma parábola que terminaria fatalmente no único lugar onde nenhum garoto tinha vergonha de admitir não ser homem o suficiente para entrar. Pelo menos não àquela hora.


— Ah, não, no Gouges não!


Olympe de Gouges era o nome completo do cemitério que algum governante idiota do passado por algum motivo achara engraçado instalar atrás de uma quadra de esportes onde, justo hoje, quase duas dezenas de machos lutavam para impressionar uma fêmea promissora (a construção do projeto poli-esportivo era obviamente posterior ao do cemitério, mas todos fazíamos questão de ignorar essa discrepância temporal para poder crucificar o tal governante sem rosto). O nosso medo daquele lugar só aumentara quando o senhor Orestes, um velho hippie com quem gostávamos de implicar por causa de sua mania retardada de dizer que era imortal, faleceu e foi enterrado lá, no mês passado. (Vai que o velho resolve mesmo sair da tumba bem na hora que um de nós fosse pegar a bola?)


Os C.T. 's – de “Corajosos Teóricos”, como a gente classificava os caras que incentivavam o resgate imediato da bola, mas que passavam longe do oferecimento voluntário para o serviço – argumentavam que não havia mais motivos para medo, já que o túmulo do Orestes fora coberto recentemente por uma generosa camada de concreto.


Porém, na última semana algo muito estranho acontecera: sem que ninguém soubesse de qualquer encomenda, um anjo de mármore em tamanho natural havia sido depositado sobre o túmulo do velho Orestes. Seria de fato belo, não fosse a aura macabra envolvendo a enorme foice partida em suas mãos alvíssimas. Instalou-se, então, o mistério: se o homem fora hippie a vida toda, como poderia arcar com as despesas de semelhante adorno póstumo? Não restavam dúvidas de que, secretamente, deveria gozar de amizades poderosas. Ou pelo menos parentes distantes. Dessa forma, a enigmática identidade do benfeitor póstumo de Orestes representava a nova maior fonte de fofocas da região, e o fato era que, em nós, só a lembrança do soturno orbe angelical já servia para causar o efeito exatamente contrário àquele pretendido pelos C.T.'s.


— Eu não vou atrás dessa bola nem fodendo! — esclareceu Lucas, dono da mesma, como que se eximindo de qualquer expectativa alheia, quando Johnatan, o mais famoso dos C.T.'s, tentou ludibriar o resto da galera com o mantra de sua raça – Se todo mundo concorda que aquele anjo parece mais o Satanás, o melhor é a gente parar por hoje e deixar ela quietinha lá. Amanhã, quando o Seu André vier para o turno matutino, alguém aparece no portão e pede pra ele pegar.


Todos me olharam. Não sem antes dar um bufo de contrariedade, assenti.


— Beleza, então. Passo aqui antes de ir para a Lan.


Fim do jogo. Suspirei de resignação. Seu André era o senhor que trabalhava como o novo coveiro do Gouges. Sujeito de modos algo rústicos, mas simpático, e, pelo que sabia, dera muito duro na vida – até como estátua viva o cara já trabalhara, segundo me disseram, embora todos concordassem que este era um serviço bem menos amedrontador que o dele atualmente.


Deve estar se perguntando por que ninguém tentou me obrigar a ir buscar a bola na hora, já que foi dos meus pés que ela saiu rumo àquele destino tão trágico. Bem, só tenho uma teoria como resposta: o pessoal evitava me contrariar porque eu jogava bem. É uma lei bastante preconceituosa com os pernas-de-pau, admito, mas vou fazer o quê? Eles que evitassem furar a rede.


Seguimos em fila mais ou menos indiana para os bebedouros, a Vanessa passando nossa covardia em silenciosa revista. O pensamento implícito era devastador, mas eu não estava nem aí: por minha causa, dezenove adolescentes do sexo masculino tiveram de engolir o próprio ego como se fosse saliva. O gosto lembrava algo entre o chá de boldo e a mousse de giló.


— Porcaria de rede do Paraguai, hein? — tentou animar Olavo Sabino, meu melhor amigo (estranha designação), quando descíamos pro bebedouro. Resmunguei qualquer coisa enquanto lançava um olhar pateticamente triste para a Vanessa, que já estava indo embora de braço dado com o Hugo. Veado, aposto como usava a gostosura da própria irmã em auto-benefício, se passando por namorado dela para aqueles que não os conheciam (e tendo êxito na mentira, já que sua aparência de colchão amarrado pelo meio destoava tanto da angelical de Vanessa). – Ih, cara, esquece – comentou Olavo, acompanhando meu olhar – O Hugo disse que ela mandou o André tomar naquele lugar só por causa do recado. Considera a gente criança demais.


Eu já disse que angelical era só a aparência?


A metade de nós morava ali no bairro, e, portanto, valia-se da mesma rua principal na volta para casa. Tem-se o quadro: uma porção de adolescentes juntos, os hormônios de cada um ansiando pelo destaque dentro do grupo... Coitado do sujeito que cruzasse o nosso caminho no retorno.


— Mark, saca só! — chamou Thiago, um dos que sempre puxavam a zoação na volta para casa, apontando o bode expiatório da vez saindo de dentro da igreja da comunidade, um pouco mais adiante. Seu nome era Thomas. Tinha os cabelos negros muito lisos e ostentava uma ridícula franja diagonal cobrindo o olho esquerdo. Por causa da quantidade impressionante de espinhas em seu rosto pálido, nós o havíamos apelidado com o infame trocadilho de “Thomas Turbando”. No fundo, a gente sabia que o fato de uma pessoa ter muitas espinhas nada tem a ver com masturbação em excesso, mas não nos agradava em nada perder uma oportunidade tão boa de zoar com o Tom. Havia até boatos de que o garoto tentara se matar algumas vezes, devido às gozações ou por também não se aceitar como era. Esse, aliás, esse foi o mote da piada que me veio à cabeça naquele instante.


— Aí, Thomas Turbando! – berrei, e a galera silenciou em ansiosa expectativa quando Tom virou-se para ver quem o chamara – Ainda tentando se suicidar? Cara, cuidado, se continuar com isso, você vai acabar ficando doente...


O pessoal pareceu rir só para não me deixar constrangido. Não estava num dos meus dias mais inspirados. Alguma coisa na água da escola, sei lá.


— É mais fácil o seu amiguinho, aí, do lado, conseguir esta proeza antes de mim – respondeu Tom, indicando o Olavo, que acabara de acender um cigarro (pois é, infelizmente, o Olavo fumava) – Pergunta se ele sabe que o hábito de fumar é considerado por muitos médicos um suicídio lento.


Levemente envergonhado, Olavo atirou o cigarro depressa numa lixeira próxima e redargüiu, também em voz alta:


— E quem aqui está com pressa? Aliás, eu prefiro fumar do que dar o rabo, sabia? Sim, porque, fumando, a pessoa só mancha o pulmão; agora, dando a bunda, você já manchou o nome da sua família inteirinha...


A risada geral foi quase histérica. O Olavo não era dado a falar palavrões, mas, quando optava por fazê-lo, dificilmente decepcionava. Isto me fez lembrar o dia em que nos conhecemos. Naquela época, sim, o vocabulário do cara era noventa por cento constituído de impropérios...

Foi há dois anos, mais ou menos. Eu trabalhava (e ainda trabalho) na Upload, uma lan house a sete quadras de casa. Meio período, para não atrapalhar a escola. Um daqueles serviços em que a gente mais se diverte do que trabalha — sinecura, o nome disso, né? O garoto que ficava no turno da tarde havia pedido demissão recentemente pro Gustavo, o dono do estabelecimento, porque viajaria com os pais ao exterior, em breve. A despeito do meu próprio, gordo e infelizmente intocado saldo bancário, sempre me perguntei o motivo de um cara cujos pais têm grana suficiente para uma viagem internacional aceitar trabalhar numa porcaria de lan house como aquela, mas, como praticamente não nos falávamos, a dúvida permaneceu pairando após a saída dele.


— Vai entender, cara? — deu de ombros o Olavo, então um head banger de cabelos longos e sebosos, cliente relativamente novato da lan, quando mencionei minha incompreensão aos colegas mais antigos, que tinham dois terços da atenção nos jogos de RPG e o restante na descontraída conversa uns com os outros, pelo sistema interno de comunicação. – Esses playboyzinhos filhos da puta só querem mostrar que também são capazes de contribuir com o produto interno bruto do país, mas dão no pé ao primeiro sinal de dificuldade no trabalho. Sempre vão querer se revoltar com alguma coisa. Aliás, você sabe que o cúmulo da revolta é sempre protagonizado por algum desses retardados, né?


— Não, não sabia – respondi, um pouco irritado com a intromissão do novato num assunto que nem lhe dizia respeito. Decidi, então, entrar no joguinho dele – E qual seria o “cúmulo da revolta”?


— O maluco morar sozinho e resolver fugir de casa.


Bem no instante em que ríamos da piada, entrou na lan house, como que para ilustrar nossa conversa, Kelly Materazzi, a patricinha do bairro por excelência. Seus longos cabelos louros ondeavam com exagerada graciosidade quando ela inspecionou o interior do estabelecimento como se tivesse acabado de extraí-lo do nariz.


— Pois não? — perguntei, contendo a custo os últimos vestígios da risada anterior.


— Ah, você trabalha aqui?


— Nãaaoooo, 'magina! – soou a voz irônica do Olavo pelo fone que ainda ocupava o meu ouvido esquerdo – Ele só está sentado na frente do único PC com monitor LCD da lan house porque comeu o dono, noite passada.


Pude escutar os espirros que eram os outros garotos tentando conter suas respectivas gargalhadas, também pelo fone.


— Sim, trabalho – consegui responder, afinal.


— E vocês têm Orkut instalado?


Embora uma dessas paredes móveis separasse o gerenciador dos clientes conectados, deu pra notar que desta vez ninguém se dera o trabalho de manter o escárnio oculto: risadas estridentes ecoaram por todo o estabelecimento. Está certo que em 2005 o Orkut ainda era novidade numa cidadezinha provinciana como a nossa, mas daí a proferir uma patacoada daquela era no mínimo deprimente. Felizmente, Kelly pareceu se tocar da burrice que cometera e mudou rapidamente de assunto.


— Hmmm, adoro jogos de RPG... — disfarçou, voltando o olhar superior para o grafite na parede atrás de mim. – Preciso instalar alguns no meu computador. Ele deu pau, sabe. Por isso tive de vir aqui. Aliás, você sabe o que significam as letras RPG?


Era realmente patética a tentativa da garota de se socializar com a classe dos menos favorecidos. E se tornou mais ainda depois da sugestão de resposta dada pelo Olavo, ao fone:


— É a abreviatura de RaPariGa, raça similar à que você pertence.


O efeito da frase na réplica que eu de fato dei à pergunta da menina foi devastador:


— São as iniciais em inglês para Jogos de Interpretação de Raparigas... – engrolei. O pessoal explodiu em risadas. Muitíssimo afrontada, Kelly foi embora na mesma hora. A minha simpatia pelo Olavo, contudo e por mais estranho que possa parecer, permaneceu. Naquele mesmo dia conversei com o Gustavo sobre a possibilidade de contratá-lo para o lugar do outro garoto, e, na semana seguinte, Olavo já dividia comigo a cadeira de gerenciador da Upload Lan House.


O jeito desbocado do meu colega de trabalho sofreria uma mudança radical quando ele se tornou espírita, por influência do irmão mais velho. Desde que a avó morrera, os Sabino pareciam ter assumido como questão de honra levar adiante o legado que a mulher professara a vida inteira: a crença na mediunidade potencial de todos os seres humanos. A velha Sra. Sabino dizia poder conversar com os mortos que ainda perambulavam pelo mundo — seja em busca de vingança, seja porque ainda não tinham plena consciência de estarem mortos —, lhes trazendo conforto e libertando suas almas de qualquer sentimento corrosivo, para que pudessem, enfim, fazer a travessia ao outro mundo com paz e serenidade. Pelo que eu sabia, o Olavo fora o último a aderir, provavelmente por causa da dificuldade que era deixar de lado uma vida de head banger que pregava o “Fuck Off” em letras e capas de CD's para assumir uma existência supostamente altruísta.


Confesso que todo esse papo de espíritos me dava certo medo, sobretudo quando o Olavo vinha com uma conversa esquisita sobre estar sentindo a presença de um deles impregnando o lugar onde estávamos, com sua aura sedenta de vingança – e piegas, ainda por cima. No entanto, procurava levar na esportiva principalmente por ter esperanças de que, algum dia, esse suposto contato com o além-túmulo o alertasse para a dádiva que é estar vivo, convencendo meu amigo a parar de fumar.


Chegamos, então, ao ponto onde nossos caminhos se separavam. As trajetórias divergiram e eu cruzei sozinho a travessa que dava para a rua da minha casa. Era a única sem asfalto do bairro, e é claro que nenhum dos meus colegas deixava este detalhe passar em branco – sobretudo quando chovia —, concedendo-lhe apelidos nada lisonjeiros como “101 Sapos” e “Brejolândia do Norte”. Já me acostumara e até via certa utilidade no descaso da prefeitura com a Rua X-23. (Só precisávamos dizer que era “a única de terra batida do bairro”, e pronto, adeus aos problemas com extravio de encomendas.)


Antes de chegar ao pequeno portão de madeira que dava para o quintal de minha casa, alguém saiu das sombras projetadas pelos galhos das serigüelas que cresciam muito juntas no quintal vizinho. Levei um pequeno susto: o garoto que se materializara inesperadamente trazia uma sacola na mão esquerda, era magro (como eu), estatura mediana (parecida com a minha) e tinha os incisivos superiores levemente proeminentes (como os meus). Portanto, até que não era feio. Fora a sacola e as roupas, só havia uma diferença entre nós, mas, àquela hora, quase não se notava. Mexi o braço esquerdo como se estivesse polindo um pára-brisa invisível e, com surpreendente sincronia, ele fez exatamente o mesmo movimento, só que com o membro direito. Desloquei a perna direita um pouco para frente, e ele tornou a me imitar, outra vez do lado oposto. Fiz uma careta de medo e a testa dele encheu-se de vincos, numa correspondência exata. Comecei, então, a reproduzir a “Moonwalk”, célebre dancinha de Michael Jackson, na qual sempre fui muito bom. Desta vez, entretanto, o outro não me acompanhou.


— Eu não vou fazer essa coisa ridícula só pra continuar bancando o espelho.


Era David Andrade, meu irmão gêmeo.


Como o colega mais atento decerto já terá percebido, não sou muito adepto da canina descrição física das pessoas, salvo os casos onde julgo possuírem traços decididamente marcantes. Para os indivíduos mais – como direi? — “comuns” que passarem por esta história, deixo a caracterização por conta da imaginação de cada um. David, todavia, mereceu atenção especial neste sentido, porque descrevê-lo é quase como (ao menos na aparência) me descrever — e nunca resisto a uma legítima oportunidade de matar dois coelhos numa cajadada só. Como já citado, a coisa que impedia que se pudesse inferir um sinal de igual entre nossas aparências era sutil, porém decisiva: David tem olhos verdes e os meus são castanho-claros.


“Uma anomalia genética raríssima”


Eis a frase que parecia ter sido combinada entre os médicos pediatras quando o assunto era a discrepância entre as tonalidades das íris de David e as minhas, desde que éramos bebês. E o fato de o desgraçado ter ficado com a melhor cor me irritava bastante, na infância. Talvez seja por isso que eu, basicamente, lembre dessa fase de minha vida como uma interminável e odiosa tentativa de bajular os genitores, com medo que David pudesse representar o centro absoluto das atenções, por ser mais bonito, teoricamente. Teoricamente.

Segundo Freud, a influência dos pais na personalidade dos filhos tem peso imprevisível. De acordo com a Teoria dos Nichos, os irmãos geralmente adotam papéis opostos na família, porque um funciona como referencial do contrário para o outro. Nem David nem eu fomos exceção a essas regras.


Papai — a quem eu notavelmente mais me apegara — sempre foi fã de esportes, e, como deve ter notado, acabei enveredando pelo mesmo caminho, com a ressalva de ter ascendido do posto de mero espectador ao de praticante efetivo. Já mamãe, a preferida de David, nunca havia sido o que se pode chamar amante dos livros (com exceção da Bíblia), talvez por falta de uma mítica “oportunidade na vida”, da qual ela e papai sempre falavam com ar quase solene. Tenho, assim, motivos razoáveis para supor que foi mesmo por pura oposição ao meu destaque como o esportista da família que David resolveu se dedicar mais aos estudos.


“Dedicação” parece um eufemismo fraquíssimo quando se quer falar sobre a inteligência de David. Em 17 anos de coexistência sob o mesmo teto, nunca vi o cara chegar em casa com um boletim onde houvesse ao menos uma (umazinha!) nota inferior a 8, fosse qual fosse a matéria. Some-se a isso a impressionante memória, os clássicos lidos e relidos, seu senso crítico inato e você terá alguém que não passa nem perto do “erudito estúpido”, de que falava Schopenhauer. Não, o David decididamente sabia definir onde terminavam as idéias do autor e começavam as dele. Conversar com o meu irmão era quase como folhear uma enciclopédia que se adaptava perfeitamente ao nível intelectual do leitor. Sua mente parecia funcionar em outro plano, mas ele fazia questão de ombreá-la ao mais baixo nível de conhecimento para poder explicar um determinado ponto de vista. Toda essa coisa de Freud, Teoria dos Nichos e Schopenhauer, aliás, eu aprendi com ele. Mas isto fica entre nós, OK?


— Massa Cinzenta, Maria Chuteira — cumprimentou Fidel, nosso papagaio, com um aceno quase solene da cabeça azulada, empoleirado num caibro da varanda. Papai o ganhara de presente quando se casou, e o nome remontava a uma época em que o ditador cubano exercia fascínio descomunal sobre o senhor Andrade. Estava prestes a completar 20 anos — o papagaio, não o papai —, embora eu o achasse desbocado demais para merecer meu respeito incondicional, por ser mais velho. Às vezes, era estranho crescer sabendo que Fidel viera primeiro, que habitava o mundo há mais tempo, e essa sensação só fazia aumentar quando ele dava mostras de uma inteligência acima da média até mesmo para a sua espécie. Os apelidos engraçadinhos concedidos espontaneamente a meu irmão e a mim eram só o início das proezas do bicho: sabia contar até 20 em português, até 10 em inglês e 15 em espanhol; usava corretamente complexos conceitos subjetivos, como “bom”, “ruim” e “vá se danar”. Fora os números, pensava-se que Fidel conhecia apenas outras 70 palavras, segundo David catalogara num esforço homérico, mas também esta convicção caíra por terra quando a ave certa vez recitou, diante da família boquiaberta esparramada nos sofás da sala, boa parte da fala de Macbeth, ato I, cena VII, quase dez meses depois de termos assistido à peça de Shakespeare num especial da TV aberta.


Depois disso, sempre que a crise econômica familiar ameaçava nos enredar, alguém sugeria que devíamos vender Fidel para a NASA. De brincadeira, claro. A menos que...


— Quem trouxe ele pra cá? — perguntei, depois de responder com o dedo médio ao cumprimento de Fidel.


— Sei lá... — disse David, tentando abrir a porta. — Deve ter ficado enjoado dos fundos, fez um protótipo de cera da parte cortada da asa, acoplou ao corpo, usou para chegar na varanda e agora está planejando patentear o invento.

***

— E aí, algum gol digno de relato? — inquiriu David, quando entramos em casa.


— Nada – respondi, cansado. – Fiz um até legalzinho, mas a rede furou, a bola foi parar no Gouges, uma desgraça. Cadê o papai?


— Foi trabalhar na casa de um colega. É incrível como ele não descansa nem nos feriados...


Fui até a geladeira e virei uma garrafa d'água na boca.


— E você? — perguntei, descido o gole. – Ainda tentando quebrar o recorde mundial de tempo na leitura dinâmica?


— Vá se foder – David brincou, jogando de lado o livro que folheava esparsamente. – Aquilo foi um erro, esse curso é uma charlatanice só.


Na semana passada, David concluíra um curso online de leitura dinâmica. O teste derradeiro para saber se as aulas haviam de fato surtido efeito foi sugerido por mim: o volume único das Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis. Em 27 minutos, ele, que vinha evitando ficção fantástica sabe-se lá por que, devorara as mais de 700 páginas do livro. Eu, que já assistira ao filme baseado numa das histórias, perguntei, então, de que tratava a trama. David sempre foi dessas pessoas que preferem a morte a assistir uma adaptação cinematográfica de uma obra literária que ainda não leram. Pigarreou forte e, algo na defensiva, disparou:


— Parece que tem alguma coisa a ver com um leão...

— É a velha divisão, Deivi – gritei-lhe do quarto, tirando os tênis imundos e atirando a um canto – Eu exercito os músculos, você o cérebro.


— Não estou vendo muitos bíceps aí... — ironizou ele, lá da sala.


— Em compensação, a sua cabeça só que cresce...


Tudo transcorria normalmente. Comemos os pães doces que David trouxera da padaria e tomamos uma coca (“Só estragam a janta com essas porcarias...” é o que mamãe diria) enquanto assistíamos à reprise do episódio em que o Nhonho bebe gasolina, do seriado Chaves. Depois, fui para o banho e tencionava não sair de lá tão cedo, dado o calor infernal daquela época do ano na província. Ouvi o som longínquo de um celular tocando. E silenciando.


É estranho pensar que aquela chuveirada foi o último momento de paz que eu tive durante muito tempo... Se soubesse disso, a teria aproveitado melhor.


Inicialmente eram batidas um pouco mais enérgicas na porta, mas antes que eu tivesse tempo de gritar “será que precisa pendurar placa pra saber que tem gente?”, se converteram em socos violentos, seguidos pela voz desesperada de meu irmão:


— MARK! MARK!


— O que foi, os Yankees estão vindo? — berrei em resposta, citando o Pica Pau, irritado.


— ABRE LOGO, PORRA!


Como no futsal, o uso do palavrão específico me fez ver que não era brincadeira. Vesti a roupa num átimo e saí para o corredor. O semblante de David havia mudado radicalmente: seu rosto estava púrpura, os olhos saltados e parecia indiscutivelmente apreensivo.


— Cara, o que...


— Mark, você tem de prometer que vai me ajudar numa coisa – ele interrompeu, nervoso, me segurando pelos ombros.


— Hã? Mas do que...


— Só prometa que vai me ajudar num projeto, caso algo ruim aconteça comigo em breve.


— Calma, cara, você não está falando coisa com coisa...


— Apenas prometa, Mark!


Eu não estava entendendo nada, mas decidi impor condições:


— Bom, desde que não seja nada que afete a minha masculinidade...


Isto não é brincadeira! — redargüiu David, e seu tom não permitia interpretações contrárias. — Jure que vai concluir uma tarefa por mim, caso eu não possa!


— Tá! — vociferei – Quem sabe se você dissesse o que está acontecendo ou de que se trata essa porcaria de tarefa eu pudesse tomar alguma decisão!


Ele não pareceu realmente ter escutado, mas acabou me soltando. Andou de um lado para o outro, cabisbaixo e pensativo. Por fim, virou-se lentamente e respondeu:


— A “porcaria de projeto”, Mark, é trazer a mamãe de volta à vida.

Prólogo

Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo com que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados?”


Hamlet

Ato III, cena I


A Guardiã dos Lírios


“Havia uma inexplicável nota de medo nos olhos da vaquinha de pelúcia que vigiava as flores orlando o túmulo do meu irmão, naquela álgida manhã de junho. Não lembro qual dos amigos a depositara ali, mas, dado o histórico de pequenos furtos inerente à maioria das necrópoles, era realmente admirável que, quase três dias após o sepultamento, ela ainda permanecesse irredutível em seu posto vigilante, exceto pelo tal fulgor amedrontado eivando as íris, botões de plástico costurados na face.


Me peguei imaginando a qual horda de suplícios sobrenaturais não estaria sujeito um bichinho de pelúcia brutalmente arrancado de seu habitat natural (a prateleira confortável de uma loja no shopping, por exemplo) e jogado sem a menor cerimônia dentro de um local tão soturno quanto aquele cemitério. Guinchos agonizantes, trotar de cascos, sussurros desesperados, latidos de cães que não existiam, espectros macabros bailando por entre as tumbas... Decididamente, não devia ser um emprego agradável, o de guardiã dos lírios.


A buzina do táxi que me aguardava além dos portões de ferro do Imaculado Coração sobressaltou a mim e a uma porção de pombos que ciscavam nalgumas marmitas velhas, ali perto. Consultei o relógio, a fim de confirmar se haviam mesmo se passado os 20 minutos combinados, mas, para minha enorme surpresa, os ponteiros jaziam estáticos sob o vidro circular. Achei aquilo estranho. Tendo, então, de confiar na boa fé do motorista, concluí relutante a despedida e me abaixei para pegar o animalzinho de pelúcia. Ele escorregou por entre meus dedos e saiu, ajudado pelo vento, quicando até parar diante da estrutura vítrea que protegia o orbe encimando a sepultura de meu irmão.


‘Você também quer um desses para pendurar no pescoço, né?’ brinquei em pensamento. ‘Muito apropriado para a espécie, mas, por ora, contente-se com a adoção’.


Depois daquele dia, meu relógio nunca mais parou. A vaquinha, hoje com apenas um dos chifres, tampouco voltou a demonstrar qualquer tipo de emoção pelos olhos castanhos.



E não há uma só noite em que eu não estremeça, pensando na possibilidade horripilante de não ter conseguido interpretar corretamente os sinais daquela manhã de junho no cemitério.”


Sinopse

Um misterioso suicídio coletivo ocorre dentro de um cemitério. Durante o velório, o irmão gêmeo de uma das vítimas recebe um livro enigmático, cujos capítulos foram escritos independentemente pelos participantes, às vésperas do ritual macabro. A única testemunha ocular da tragédia é um papagaio de memória eidética, que também pertence à família do protagonista.

Entre a tentativa de decifrar as pistas impressas ao longo da obra e outras proferidas esporadicamente pela ave, descobre-se que os sete palmos da tradição fúnebre também podem ser a distância entre temer a morte e ser temido por ela...